Quênia – De onde somos

“Viajar expõe um padrão curioso. Não importa o país, em algum momento a pergunta chega: De onde você é? Espero que eu nao seja o único viajante curioso querendo saber de onde os outros são.

Em todas as viagens, temos contato com os locais e também pessoas de diversas partes do mundo e me peguei pensando que a resposta muda completamente o jogo. Nosso olhar ganha contexto e a conversa encontra direção. Em poucos segundos, deixamos de ser apenas presença e passamos a ser história, referência e até expectativa.

Ao nos identificar, levamos ao outro cultura assim como levamos uma necessaire bem montada. Fornecemos e recebemos pequenos acessos rápidos. Nem sempre conscientes, mas decisivos na forma como lemos o mundo e somos lidos.

O primeiro contato, muitas vezes visual, passa a ser sustentado por referências, afinidades e histórias ligadas ao lugar de onde viemos. Saber o mesmo sobre o outro parece ajudar a entender por que ele está ali, seus gostos e até seu comportamento.

Nunca gostei da frase ‘brasileiro é…’.. Simplifica demais um país que não cabe em uma narrativa única. Ainda assim, do lado de fora, somos quase sempre traduzidos em festa, sol e futebol.

Quando digo que venho do Brasil, a reação costuma ser imediata. Um entusiasmo instantâneo como se tivesse uma ideia pre-concebida. Um imaginário coletivo que, embora limitado, é curioso observar. “Oooh Brazil, I love Brazil”, seguido de samba, futebol, Ronaldinho, Rio de Janeiro.

Entre o estereótipo e a realidade, existe um Brasil mais silencioso. Mais complexo. E é esse que gosto de revelar, aos poucos, em cada encontro e para quem me da a oportunidade. Mas . . .

No Quênia, essa pergunta ganhou outro peso. Estar na África tem sido um exercício profundo de percepção. Estou escrevendo esse este texto a bordo de um voo de Nairobi para o Masai Mara, ainda atravessado por uma cena simples, mas difícil de esquecer.

Por alguns minutos, o aeroporto deixou de ser um lugar de passagem e virou presença. Existia leveza ali, havia uma relação diferente com o tempo e com o outro. Menos controle. Mais disponibilidade. Ali, vi com clareza que felicidade é um estado de espírito e que está disponível a quem permite.

Pessoas sorrindo, cantando, dançando no próprio ambiente de trabalho. Funcionários do aeroporto convidando desconhecidos a se juntarem, especialmente aqueles que vêm de culturas mais contidas, pouco acostumadas a dançar em público, ainda mais em aeroportos, lugares normalmente associados a estresse. Eu vi em tudo isso uma genialidade rara e um reflexo genuíno da alegria de um povo que oferece muito sem esperar nada em troca.

Não era euforia. Era algo mais profundo. Era o reflexo de um povo inteiro em movimento que de algum jeito, nos tomou também. Minha mãe costuma dizer que somos como um poço. Quando bem cuidado não seca, transborda.

Ali, algo ficou claro. Há profundidade e há generosidade em dividir tudo isso com quem por lá passa. Dizem que o Masai Mara é sobre observação da vida selvagem, sobre encontros raros e paisagens que impõem silêncio. Mas cheguei a conclusão essa viagem não é sobre o que se vê. É sobre o que se é capaz de acessar.

Eu passei por aqui.
E agora carrego um pouco daqui.
E algo em mim mudou.