Quando viajamos, especialmente por países visitados por pessoas de tantas nacionalidades, algo curioso sempre acontece. As conexões surgem com facilidade. Um olhar, um “oi”, um “com licença” e, em poucos minutos, a pergunta inevitável aparece: de onde você é?
A resposta, embora simples, carrega significados. Ela abre caminhos, cria identificação, muda o tom da conversa. O primeiro contato, muitas vezes visual, passa a ser sustentado por referências, afinidades e histórias ligadas ao lugar de onde viemos. Saber de onde o outro é parece ajudar a entender por que ele está ali, o que gosta, quem é e até como se comporta.
A cada viagem, percebo que levamos nossa cultura na mala e na bagagem de mão. Carregamos valores, hábitos e leituras prontas sobre o mundo e sobre o outro. Como pequenos amenities na nécessaire, são acessos rápidos que nos ajudam a interpretar e também a sermos interpretados com mais clareza.
Nunca gostei muito da frase “brasileiro é…”. Somos muitos, diversos, de um país continental, cheio de contrastes culturais. Ainda assim, somos brasileiros e, para muitos estrangeiros, carregamos uma imagem bastante positiva. Sempre que digo que sou do Brasil, a reação vem quase automática: “Oooh Brazil, I love Brazil”, seguido de samba, futebol, Ronaldinho, Rio de Janeiro.
Sabemos que somos muito mais do que isso. Falamos português, não espanhol. Temos São Paulo, tecnologia, gastronomia rica e, sim, um povo acolhedor e alegre, guardadas as proporções. Gosto de ampliar esse olhar em cada encontro, abrir um pouco mais esse horizonte.
Estar na África tem sido um exercício profundo de percepção. Escrevo este texto a bordo de um voo de Nairobi para Masai Mara, ainda impactado pela experiência que vivi no aeroporto. Ali, vi com clareza que felicidade é um estado de espírito. E que ela está disponível a quem permite.
Pessoas sorrindo, cantando, dançando no próprio ambiente de trabalho. Convidando desconhecidos a se juntarem, especialmente aqueles que vêm de culturas mais contidas, pouco acostumadas a dançar em público, ainda mais em aeroportos, lugares normalmente associados ao estresse. Há nisso uma genialidade rara e um reflexo genuíno da alegria de um povo que oferece muito sem esperar nada em troca.
Minha mãe costuma dizer que somos como um poço. Quando bem cuidado, ele oferece água suficiente para si e para os outros, sem nunca secar. Tenho certeza de que este povo tem um poço profundo. E que consegue nutrir todos que por aqui passam.
Eu passei por aqui.
E algo em mim mudou.
Obrigado, Quênia.